Adeus a Manoel de Barros, o menino que carregava água na peneira.

“A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela.”
Manoel de Barros – Saudações ao poeta que foi poetar no céu.frases_manoel_de_barros

Internado há duas semanas faleceu hoje, quinta dia 13, no dia mundial da Gentileza, o poeta Manoel de Barros. Fez cirurgia para desobstrução do intestino mas não resistiu e teve falência múltipla dos órgãos. O poeta partiu. Aos 97 anos e 74 anos de carreira ele nos deixa uma grande obra e uma poesia doce e sensível onde a natureza e as palavras sempre foram seus temas.

Nasceu Manoel Wenceslau Leite de Barros em 19 de dezembro de 1916 em Cuiabá. Era poeta e fazendeiro. Foi casado com Stella desde 1947 e teve três filhos. Sua obra de estreia foi “Poemas concebidos sem pecado” (1937) e não parou durante todo esse tempo. Publicou muito até 2013. Ganhou vários prêmios. Era considerado o maior poeta brasileiro vivo. Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada” de 1996. Mas foi desistindo e partindo após a perda de dois filhos, o mais recente em 2013. Sua filha e sua esposa que o acompanharam nessa jornada final.

Segundo matéria do O Globo: “No documentário “Só dez por cento é mentira”, lançado em 2008 por Pedro Cezar, ao ser indagado sobre como gostaria de ser lembrado, Manoel ri, coça o peito, diz que a pergunta é cruel; já mais sério, fala que o único jeito é pela poesia. “A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”.

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O menino que carregava água na peneira – MANOEL DE BARROS

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Vale a pena conhecer mais desse poeta que nos deixou poesia, muita poesia.

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